Existe algo profundamente humano no ato de evitar o que mais nos move: o desejo. Por que ainda sentimos vergonha, desconforto ou até culpa ao falar sobre sexo, mesmo vivendo em um mundo que parece tão aberto? Este texto é um convite para refletir sobre a raiz desse tabu e como ele atravessa nossos corpos, nossas relações e a forma como existimos no mundo.
A pergunta que insistimos em evitar
Sempre que eu penso no Nú Entre Amores, eu penso numa vontade antiga, quase ancestral, de falar sobre o que realmente importa, mas que quase ninguém diz em voz alta. E o sexo, por algum motivo, está sempre no centro dessa dificuldade.
Acho curioso: vivemos em 2025, consumimos conteúdo sobre tudo, compartilhamos opiniões sobre tudo… e ainda assim, basta alguém mencionar “sexo” em um jantar, e o ambiente muda. Uns desviam o olhar. Outros riem nervosos. Alguns silenciam, como se estivessem sendo observados por alguma força invisível.
E eu me pergunto: por que ainda é tão difícil falar sobre sexo com naturalidade? E mais ainda: por que isso importa tanto para a nossa saúde emocional e afetiva?
Um pouco de história para entendermos o presente
Não é à toa que esses silêncios vivem dentro de nós. Durante séculos, o corpo, especialmente o corpo que sente prazer, foi monitorado, controlado e moralizado.
Na Grécia antiga, o sexo era visto como algo natural, mas regulado por papéis sociais rígidos.
Na Idade Média, o prazer se tornou pecado, e o corpo passou a ser alvo de culpa e disciplina.
Durante o período vitoriano, a moral sexual se tornou ainda mais repressiva, especialmente para mulheres.
E mesmo depois da revolução sexual dos anos 60, que trouxe liberdade, ainda carregamos as sobras da vergonha.
Ou seja: a história deixou cicatrizes emocionais que atravessam gerações.
Não é estranho que eu, e talvez você também, ainda sinta um incômodo, uma hesitação, uma necessidade de medir as palavras.
Não é falta de informação. Não é falta de vontade. É herança.
“O silêncio sobre o sexo não nasce da falta de desejo, mas da história de repressão que carregamos no corpo.”
Falar de sexo é falar de humanidade
Quando comecei a pensar no meu podcast, eu não imaginava o tamanho desse universo. Eu não sou profissional da sexualidade, e isso é justamente o que me encanta. Eu falo como pessoa, como mulher, como alguém que também está aprendendo, sentindo, errando e se encontrando.
E talvez por isso, quando trago esses temas, sinto que estou conversando de igual para igual com quem me ouve.
Porque no fim, todos temos uma relação íntima com o próprio desejo. Todos já tivemos dúvidas, medos, inseguranças. Todos já escondemos partes de nós.
E quando alguém finalmente se abre, o que nasce ali não é apenas conversa. É cura.
“Falar sobre sexo com naturalidade não é sobre ousadia. É sobre liberdade.”
Por que ainda sentimos medo?
Há alguns padrões que se repetem quando tento entender esse medo coletivo:
1. Vergonha aprendida
A vergonha não nasce conosco. Ela é ensinada. E muitas de nós crescemos ouvindo que sexo é perigoso, feio, errado, proibido ou “coisa que não se fala”.
2. Falta de espaço seguro
Não fomos educados para falar de sexo, nem em casa, nem na escola. Então, quando adultos, nos sentimos perdidos, como se não houvesse vocabulário emocional para isso.
3. Medo de julgamento
Falar sobre sexo é se mostrar. E se mostrar sempre traz a pergunta: “Será que vão me julgar?”
4. O desconhecido
O que não compreendemos, tememos. E sexo é um território de descobertas contínuas, inclusive sobre nós mesmos.
Então… como podemos mudar isso?
De forma simples: começando a falar.
Falar do corpo sem se justificar. Falar do desejo sem pedir desculpas. Falar das inseguranças sem medo de parecer vulnerável. Falar do prazer como uma parte natural do viver.
E eu, honestamente, acredito que esse é um caminho coletivo. Cada conversa abre uma porta. Cada porta derruba um tabu. E quando percebemos… já estamos vivendo com mais leveza, mais presença, mais verdade.
Perguntas para você refletir
O que você aprendeu sobre sexo quando era criança ou adolescente?
Hoje, o que ainda te causa vergonha quando o assunto aparece?
Em que momento você se sentiu realmente livre para falar sobre seu desejo?
O que ainda te impede de viver a própria sexualidade com naturalidade?
Encerrando… com coragem
Se tem algo que aprendi nesses meses criando o Nú Entre Amores é que a conversa é o antídoto do tabu. E que toda vez que falamos de sexo com respeito, consciência e sensibilidade, abrimos espaço para curas profundas.
E talvez seja assim que a gente comece: um texto, um episódio, um silêncio que finalmente vira palavra.
Se esse texto te tocou de alguma forma, se te fez pensar, lembrar ou sentir, então te convido a ir mais fundo comigo.